Na política das minhas emoções
Diante de uma possível crise no sistema, o conselho se reuniu para uma assembleia de emergência. O Partido Racional presidia a seção, que acontecia na parte central do hipotálamo.
- Depressão de novo? - se manifestou o Partido Amoroso - precisamos aumentar o nível de dopamina já!
- Não sejam tolos, o nível de dopamina está estável, precisamos aumentar a serotonina! - rugiu o Partido de Auxílio aos Neurônios
- Parem os dois. Não é uma depressão. Não veem que se trata de uma crise existencial? Vocês ficam tão preocupados com os próprios suprimentos que se esquecem que precisamos das outras pessoas! - falou o representante do Partido Social, que já havia lidado com outras eventuais fases de dependências.
- Não precisamos de pessoas, precisamos da F-A-M-I-L-I-A! Soletrou o Partido Familiar, sendo logo contestado pelo Amoroso.
- Quem? Aqueles idiotas que não dão a mínima para a gente?
- Não, esses dai são os parentes, e a gente também não gosta deles, mas família é outra coisa.
- E como isso melhoraria a situação? Você quer mesmo confessar?
As atenções se voltaram para o Partido Familiar, as bocas escancaradas e os rostos aflitos esperando uma resposta diante do ultraje proposto.
- Revelar o que somos? Jamais!
- Então do que adianta essa aproximação? Quer ir parar na psicóloga de novo?
- Na verdade pode ser uma boa ideia, ela foi bem legal com a gente e ajudou bastante…
- Isso é totalmente inconstitucional e não será aceito durante a minha presidência! - protestou o Partido Racional, com ecos de egocentrismo e condenações à autopiedade.
- Podemos investir naquele peãozinho que estamos cultivando, ele pode garantir uma maior liberação de dopamina e…
- Chega disso! Não precisamos de mais neurotransmissores! Precisamos de pessoas físicas!
- A parte social está estável, não precisamos de mais socialização do que já temos, por acaso você quer causar um colapso no sistema? - ralhou o Partido Emocional, que reconhecia estar bem ajustado em sua posição
- Então, se não é o social, não é o amoroso, não é o familiar, não é depressão e não tem a ver com os neurônios, então o que está acontecendo aqui? Por que fomos convocados? - manifestou-se pela primeira vez o Partido Saudável, que também se encontrava estabilizado em suas diretrizes.
- Isso tudo é falta de ler! Precisamos de mais revistas, mais jornais, mais escrita, ler por 3h, ou talvez 4h ou talvez o dia inteiro! - Desesperou-se o Partido Leitura, que desde que presidiu à câmara no ano de 2015 desejava voltar ao seu reino de privilégios.
- Você está querendo que a crise realmente ocorra né? Só pode estar maluco em pensar em mais livros e mais revistas, você vai superaquecer o sistema! - argumentou o Partido Estudantil
- Eu não entendo. Estão todos devidamente estabilizados, as normas estão sendo cumpridas, então qual é o problema? - Perguntou o Partido Amoroso, colocando as cartas na mesa.
- E quem disse que estamos estáveis? O horário pode estar sendo cumprido, mas nossa receita vem apresentando um déficit considerável em relação aos outros anos! Esclareceu o Partido Estudantil.
- Mas como isso é possível? Se os horários estão sendo cumpridos, há o investimento e deveria haver o retorno!
- Você se esquece, meu caro amigo do Partido Saudável, que no nosso sistema não há meritocracia, há somente um mar de pressões e inseguranças fomentado pela própria vida em sociedade. - concluiu o Partido Estudantil, sendo seguido pelo Partido das Relações Sistêmicas
- E, como consequência, nossa cotação tem caído muito. Nesse ritmo a inflação só vai aumentar cada vez mais, até chegar em um nível irreparável!
- Nenhum nível é irreparável, podemos consertar isso! Não se trata de uma crise generalizada, se trata de problemas de confiança e autoestima devido às crescentes pressões registradas! - bradou o Partido Racional
- A constituição deve ser mantida e o sigilo é imprescindível para a realização da operação. Quaisquer indícios de quebra de sigilo governamental será punido com cortes e reajustes, não havendo indenizações! Seremos brutos e sistemáticos como sempre fomos, e a crise não mais tramitará por entre nossas barreiras. Estamos perto companheiros, e cada hemácia aqui presente é parte dessa história de conquistas e perdas. A vida reside na mutabilidade, não se pode ser bom em tudo ao mesmo tempo, mas se pode encontrar o equilíbrio. Talvez, tenhamos sim que realizar um corte em questões sociais ou amorosas, mas tentaremos o possível e o impossível para não prejudicar nenhuma das partes que compõe o corpo, nossa fortaleza e nosso lar!
- E quanto ao vazio? Você propõe uma série de coisas, mas não enxerga o vazio contido em uma vida ocupada demais! - interviu o Partido Social e o Amoroso, que entraram em consenso sobre os tempos de anestesia em que viviam
- Por ora, viveremos a base de neurotransmissores. Cada problema deve ser estudado separadamente, e resolvido de acordo com a sua urgência.
- Mas esse problema persiste há 4 anos! São 4 anos sem sentir, você está destruindo o corpo emocionalmente!
- A decisão já foi tomada e não concederei regalias a grupo algum. O rigor é necessário mais do que nunca, pois finalmente alcançaremos o equilíbrio de todas as esferas. Estamos quase lá, não posso lidar com questões meramente superficiais agora. Embora sejam importantes, precisamos lidar com medidas de curto prazo, que resultarão em superávits imediatos. - declarou o Partido Racional, muito conhecido por suas tendências economicistas, mas que reconhecidamente eram necessárias desde que o sistema foi absorvido. Foi o único partido capaz de lidar com a crise e assim se tornou presidente da câmara, agora aproximando-se mais do que nunca do tão sonhado paraíso fiscal.
- o vazio sempre existiu - opinou o Partido do Sono - ele não é de agora e não é agora que vai mudar. Além do mais, é possível conviver com ele em plena harmonia.
- É, 2015 foi realmente um ano de plena harmonia - ironizou o Partido Emocional - marcado de graves crises existenciais e dependências agudas que quase fritaram todos os nossos neurônios!
- Foi um período de grande crescimento e aprendizagem! - Retrucou o Partido do Sono.
- Vocês só enxergam o que querem ver, os próprios umbigos e interesses. Não percebem que não há vida com o vazio? Tudo se torna sistematizado, cotidiano, e aos poucos se perde o prazer, o gozo, a felicidade! Não é só porque fazemos algo que significa que gostamos de nossa posição.
- Então você se opõe à constituição? Pois não se esqueça que sem ela o vazio era solitário e antissocial, e foi no meu governo que se instalaram as propostas de emenda, como o Bolsa Namorado e o Auxílio Socialização, medidas populistas que nos fizeram contornar uma crise de proporções inimagináveis!
- E por quanto tempo? Pois não se esqueça você, que a crise voltou ainda mais grave nas férias seguintes, porque as suas bases construídas não foram fortes o suficiente!
- E agora os cofres não estão estáveis? Não mantemos mais as penosas dívidas públicas, saudadas há meses atrás!
- A que custo? Quem disse que a estabilidade promove a vida? Você nos reduz a uma mera estatística, nos leva a ebulição e depois sai impune quando finalmente explodimos!
- Ordem na Casa! Não vou tolerar mais essa discussão pueril que não nos vai levar a lugar algum! Mudanças sociais não estão em pauta, muito menos as emocionais, que perderam seu direito de voto no conselho há muito tempo. A política de austeridade irá entrar em vigor, aqui não há espaço para medidas populistas, apenas há…
- … espaço para suas drogas injetáveis e o seu jogo de xadrez?
- Basta! O Partido Emocional está oficialmente expulso da assembleia! - declarou por fim o Partido Racional.E foi assim que eu matei as minhas emoções.
- Izzy, com um quê de Ciara, já há algum tempo
Há 4 anos, 1/20/2017.
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